ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS E
MIL
LEMBRANÇAS
Olhando velhas fotos, nos reportamos a um passado, em um tempo que nós vivemos e não nos demos conta de quantas décadas ficaram para trás. As fotos, antes em preto e branco, hoje se tornaram amareladas pelo tempo, mas as paisagens e os personagens vestidos a caráter da moda ainda conservam suas belezas simples e naturais.
Faço uma viagem no tempo contemplando esses velhos álbuns de fotografias que minha mãe conservava com tanto carinho, como se fosse um tesouro; e, hoje, que já não se encontra mais aqui conosco, comecei a sentir o mesmo amor pelo tesouro. De fato, é algo muito precioso. Neste álbum, posso ver meus bisavôs maternos e paternos no dia das núpcias de meus pais; também todos os meus tios, todo o clã. Virando as páginas, encontro fotos da lua-de-mel dos meus pais, no Rio de Janeiro. Como eles eram lindos, felizes e jovens! Que olhar amoroso! Fico me perguntando o que estariam pensando naquele momento...
Talvez estivessem pensando na família que iriam construir...
Viro nova página e vejo minha mãe toda sorridente e embaixo uma etiqueta amarelada com os dizeres: terceiro mês de gravidez; ao lado, meu pai com o sorriso mais lindo do mundo. Continuando a seqüência de fotos, vejo meu pai segurando uma bonequinha no colo e beijando a testa de minha mãe; embaixo, há uns dizeres em letrinhas miúdas, num dourado envelhecido, e um pequeno convite de participação me chama a atenção: “Eu me chamo Arneyde, vim a este mundo para dar continuidade à felicidade que já morava nos corações dos felizes papais Argeu e Zeneyde. 14/05/1949. às 16.00 horas”.
Não saberia descrever a emoção que senti ao ver essas fotos, pois já as havia visto milhões de vezes antes, mas hoje, particularmente, algo me chamou a atenção e um arrepio de frio assaltou-me de repente. Continuei folheando o velho álbum, com algumas folhas coladas e ressecadas pelo tempo, e me deparo com a foto e o convite- participação do meu saudoso irmão Ângelo Marcos. Deus, agora, eu entendo porque tanta emoção e porque minhas lágrimas descem furtivamente quase molhando o velho álbum! Porque, revendo a minha foto de casamento, me dei conta de que nenhum deles está mais aqui conosco. Da minha pequena e grandiosa família, restei apenas eu, e grossas lágrimas descem pelo meu rosto, quando me vejo ali naquela foto vestida de Anjo numa procissão e papai e mamãe que me olhavam orgulhosos.
Passa-me pela cabeça, neste exato momento, o que eles sentiriam se me vissem agora. Não mais aquela menininha bonitinha, mas uma mulher madura, com os cabelos já grisalhos, a testa franzida pelas rugas de tristezas, das saudades, dos choros da solidão, das noites frias e vazias que fazem parte da minha vida atualmente. Em cima da cama, outros álbuns e outras datas, fotos lindas coloridas, nascimento
do primeiro neto, Rodrigo, meu primogênito, e todas aquelas fotos que mais parecem um diário de vida: o primeiro dentinho, começando a engatinhar, a sorrir, a falar papai e mamãe, e na seqüência Rodrigo, anunciando sorrindo ao lado de um papai e dos avós corujas o nascimento da irmãzinha, a minha bonequinha Giovanna, linda, loirinha, pesando 4.950 kg, uma boneca grande.
E novos álbuns são abertos, novas recordações: a primeira Comunhão dos dois pimpolhos, a primeira Formatura do pré, e as viagens à Itália para conhecer os avós paternos, tios, tias, primos, primas, os passeios na neve, visita ao Vaticano, o Teatro de Milão, a casa de Pinochio, a casa de Romeu e Julita em Verona, Veneza, Lago de Como; eles extasiados diante das obras de Picasso e da Mona Lisa, no Louvre em Paris, assustados diante da Torre Eiffel e com o gigante Empire States em N. York, as folhas secas em Chicago, o inverno em São Francisco, eles ainda pequenos deslumbrados com o aeroporto grandioso de Orly e suas gigantescas escadas rolantes; e, finalmente, alegres e sorridentes, ao mesmo tempo aterrorizados, brincando na montanha russa da Disneylândia, em Miami.
Mais fotos e encontro-me diante de uma Igreja lindamente ornamentada para o casamento de meu filho, meu menininho havia crescido, se tornado um homem, e eu não havia percebido, e ali estava eu, relembrando o enlace de Rodrigo e Marcela, a felicidade e os sorrisos estampados nos nossos rostos...
Como num passe de mágica, viro a folha do álbum e me deparo com aquela coisinha linda de nome Lucca, meu primeiro neto. Deus, como são sublimes essas fotos! Mamãe tinha razão, porque estas fotos são um tesouro, é toda uma história de vida que vai sendo narrada aos poucos... Repete-se a história em que somente o nome dos personagens é que muda.
Num outro álbum vejo a minha menininha linda, parecendo uma rainha adentrando a nave da Igreja, conduzida pelos braços do irmão, já que seu pai nos havia deixado, há um ano atrás. Aquele casal lindo, Giovanna e Rodrigo, precedido pelo pequenino e gracioso Lucca, meu netinho; nova comoção, novas lágrimas, porque também se chora de felicidades. No altar, um jovem trêmulo, André, à espera do seu amor, e uma jovem futura mamãe, minha nora Marcela, que sorridentes aguardavam a entrada da noiva e seu irmão, o Padre Getulio Carlesso, que os batizou. E, sucessivamente, como um filme, as fotos vão me mostrando momentos da intensa felicidade que eu vivi, e logo veio o sorriso maravilhoso de Rodrigo e Marcela com o pequenino e lindo Enzo, que havia acabado de nascer; dois netos varões eram tudo que seu pai, o orgulhoso papai Vasco, tanto queria para dar continuação ao nome de sua família Marcheschi. E essa responsabilidade coube aos meus queridos Lucca e Enzo.
Após horas de lágrimas e de sorrisos, estou tranqüila agradecendo a Deus pela dádiva maravilhosa que ele me deu: a minha família, meus pais, meu marido, meus filhos queridos, e meus dois netinhos, que continuarão a escrever novos capítulos dessa história e serão juntamente com os filhos da Giovanna que ainda virão os novos guardiões desse tesouro precioso, o tesouro de meus queridos pais, Zeneyde e Argeu, que foram os primeiros protagonistas da nossa história. É uma história simples, mas rica de um nobre sentimento:
O AMOR!
ARNEYDE T. MARCHESCHI
VITORIA.E.E.SANTO
21.05.2002 - 19:30 hs