CONFIDÊNCIAS
Daniel Cristal
Deixei pró fim o mais louco segredo
sem outro paralelo na poesia:
amar pelo espírito sem medo
a musa deusa diva da harmonia!
Acolhe-me no seio de cores garridas,
aspira-me os ruídos dos meus brados,
retém-me nas manhãs futurecidas,
troca comigo os beijos mais sagrados!
É a loucura e o êxtase do verso
que no céu numa estrela se espelha
ao mudar de galáxia no Universo!
É o surgimento novo da centelha
que ama o futuro cheio de beleza,
pois que só o Amor vence a malvadeza.
01.12.2003
REALIDADES
Daniel Cristal
Tenho um leme de pinho, sou beirão,
nato e crescido a olhar a serra e o mar!
O delta que afamou a nossa região
vem desaguar na ria Aveiro-Ovar...
Na laguna não há ondas marítimas,
é tudo manso e ameno, tudo pleno,
é tudo milenar e sabe a mar,
e no lugar do sal, sabe a feno!
Tem moliço quais algas nutrientes,
terras negras e férteis de pastagens,
e cachopas trigueiras e nubentes
prá a ocasião devida das selagens.
Por isso, não é em vão que invoco o leme,
que fende a onda adversa, e nada teme!
Net (Miramar), 28.10.2003
A MUSA É TERRA BRASILEIRA
(Ode)
Daniel Cristal
A barlavento o vento assobia e venta
Nas minhas velas pandas, e à bolina
Conduzo a caravela que me tenta
As terras do Brasil; tenho essa sina!
É o sonho que a sustenta.
Deixo a costa escarpada, o vicentino
Cabo, observo Sagres, e, ao largo
De Lagos, saúdo o mundo pequenino
Que outrora foi enorme... agora amargo!
É para o Brasil que guino.
Amargo e parco, assim eu parto farto
Da escassez, que fez a vil tristeza,
P´ra tentar a aventura ou desventura
De amargar o sal do mar na tez...
É o Brasil que me sutura.
E não há sino egrégio que me acuda!
Levo a pele das falésias no grés ocre,
O adejar das gaivotas que me gruda
E o marulhar das ondas no meu odre.
Há a Musa que me ajuda.
Desta terra variada, a amendoeira
Vai comigo no olhar da cotovia
Como se a melodia fosse a jeira
De rumar ao Brasil na melhor via.
Musa é a terra brasileira.
Nem galeão é preciso, basta uma casca
De noz, e na proa içada um duplo lenço
Que me leve a bombordo - um banco na lasca
Onde me sento em pélago suspenso.
A Musa não traz borrasca.
Albufeira, 22.10.2003
(CON)FUSÕES
DanielCristal
Cega como um inseto andas à minha volta
Ávida por chupar o meu sangue meloso...
Atacas-me distraído e trazes escolta
E porque vens tão solta, eu fico fogoso!
Afasto-te com gestos; desejo matar
A comida dos restos, fazendo sangrar...
Persigo como louco a tua loucura,
Porém, nesta soltura, o prazer sabe a pouco!
Tenho sim de deixar que te agarres à pele
Que me chupes o corpo até ficares saciada
E no pasmo do orgasmo tu saibas a mel
E eu esmague a preceito tua loucura danada.
Assim, ficamos quites: sangrando meu peito,
teu jeito por defeito é excesso e respeito.
18.09.2003
MADRIGAL
Daniel Cristal
Sem ti, amor, seria eu pouco ou quase nada!
Contigo inteira, fico cheio de amor;
Contigo nua, és a minha diva e minha fada
E como estás rubra, invade-me o calor...
Do afã, te compenetro com carícias;
Do gesto, aproveito a rendição;
Aberta ficas quais rosas ou estrelícias
E eu sinto meu girassol na tua direção.
Não há tabus, amor, no que é divino;
Há todo o Sol que mergulha no teu lago:
Um mar de gozo estreme ao som do violino
Ou harmônio que dedilho no êxtase do afago.
Palavras e razão não são precisas;
Repito mais um beijo, e com amor me bisas...
16 de Maio de 2003
FELIZ ENCONTRO
Daniel Cristal
O vôo da pomba imita o teu gesto lindo
E o teu olhar só o vejo na ternura !
O Sol nasce no teu sorriso infindo
e caldeia a atração que nos sutura.
Renasceram, pois, os componentes
Para que o amor fosse possível,
metamorfoseando em um, dois entes
que se amarão para sempre ao mesmo nível...
Do amor ao desejo e ao querer,
é um passo voluntário e sem reservas.
É a confusão de se ter num outro ser,
Numa monda que reduz daninhas ervas.
E agora, quando te amo, és tremenda !
No fim, ficas divina... a eterna lenda!
2 de Maio de 2003
À MINHA MÃE
Daniel Cristal
Bendigo o teu colo, os teus beijos de amor!
Abençoo o dia em que me viste nascer!
A tua alegria encheu-me de calor
E brotaram flores belas ao amanhecer!
Decepção nunca houve (que me recorde!)
E o teu amor - telúrico foi até ao fim!
Chorei as amarguras neste acorde
Que fiz homenagem de ti, dentro de mim…
Foste minha mãe e terra nos espaços
Foste meu amparo ate à juventude
E fui eu teu esteio na decrepitude…
Aprendi a cuidar contigo os nossos passos!
Afagaste a dor minha no colo teu
Extremaste teus braços no amor
Para que filho teu fosse condor
E cortasse os grilhões do Prometeu...
À hora da tua morte, reparei
Que tinhas duas lágrimas nos olhos;
Duas lágrimas que eram dois abrolhos
Duma rainha morta por seu rei!
Deixa lá, que eu fico eternamente,
Que também me espera a terra quente!
Ela é nossa mãe, e bem se sente...
No fundo somos sempre uma semente.
Eugénio de S Vicente
Miramar.2003
AMIGAMOR
Daniel Cristal
Nos olhos do Amigo, eu vejo afeto,
Nos braços do Amigo, vislumbro tudo...
A Amizade é amparo são e reto
Para anular as mágoas que eu desgrudo.
O Amor é mais forte que a Amizade!
Feliz daquele Amigo que mais ama...
Dúvidas eu não tenho desta verdade
Por ter AmorAmigo como chama.
Quem não tem Amigo nesta vida
Reduziu-se à curta dimensão
Da triste e desflorada margarida...
É serpente que vive na areia
Quem não tem Amigo nesta vida
Ou esse AmigAmor que se granjeia!
Set.02
(c)ArmandoFigueiredo
VEM AMOR!
Armando Figueiredo (Daniel
Cristal)
Receio que as palavras não digam tudo,
que sejam o sinal do surdo-mudo,
que não tenham a força do vulcão,
propulsão dum foguetão ou astronave...
Receio que finde a força do entrudo,
do grito que se extingue ao meio dia
do dia mais extenso de Verão...
vem amor, vem na bela forma de ave...
Vem, amor, vem, que iremos de barco à vela
ou nave espacial ou caravela
às estrelas mais distantes raiadas
e daremos canções por terminadas...
Que não digam tudo as palavras
é o meu receio, amor, por isso vem,
vem misturar-te à canção que criaste
no meu coração, harmónio do além...
Harmónio do além, harmónio soando
a um coração dolente, feliz
por ter amado tanto, tão intenso
amor, que só no céu é flor de lis !
É flor de lis, amor, flor do brasão,
lá no céu argentado, projectado
que foi o sonho lindo da canção
que uniu o harmónio ao coração !
12.03.2001
OSTRACISMO
Eugénio
de São Vicente (Daniel Cristal)
Quando alguém se destaca
A ostra estaca
Fecha e impede
A entrada da Lua
Assim como a amêijoa
A entrada do peixe
Que não flutua
Acontece quando a Lua reaparece
E uma nova estrela
Ofusca
Ou a mulher pontua
A busca de querê-la
Parece um esteta absorvido
Na reciclagem da charrua
E entretanto irreconhecido
Mas abundante
Sua...
FUTUROCER (3)
Eugénio
de São Vicente (Daniel Cristal)
Já cumpri, amigos, todos os invernos
E todos os estios e todos os cios.
Cumpri, assim, amigos, todas os infernos
Vossos e meus, nas devidas gerações...
Gozei as praias, gozei montanhas
Gozei ao lado vosso toda a vida...
Assumi as dores do coração e das entranhas!
Perdoai, companheiros, algumas perdas
Acontecidas nesta lida!
Estou cansado, amigos, e quero do zero recomeçar
Ou, para ser sincero, parar para sempre numa ermida!
Estou desolado do amor, perdido na memória!
Estou fraco e esmorecido da paixão!
Nem sei se, de mim, ficará alguma história,
Nem isso importa, amigos, fique a negação!
A negação de tanta futilidade
A negação do Amor que nunca chega...
Pois, eu irei desta para a eternidade
Mas levo-vos, isso levo!, no coração
- um coração bem pulsado sem idade!
2003-06-12
SANTA
MULHER
Eugénio
de São Vicente (Daniel Cristal)
No altar quero-lhe mais
É esguia e piedosa
Até é bela demais
Com sua pele sedosa
Tem o passo elegante
Quando está é mais ouvinte
Não a quero como amante
Ela só ama o requinte
Amá-la seria perdê-la
Desfazer sua harmonia
Vou contentar-me com vê-la
Com ela perder-me-ia
A carne que me envolve
Pode atraiçoar minha alma
A paixão nada resolve
Mais vale cantar um salmo
Opostos são alma e corpo
Arcanjo me vou tornando
Não quero cair de borco
Ou amar danificando.
Fevereiro 03
©ArmandoFigueiredo
OH,
SEM TOMATES!
Daniel Cristal
Morro de susto, quando falas de tesão!
Parece o tesão de gatas que brigam,
Capaz de torturar qualquer vilão,
E ao som do teu comando os tomates minguam!
Morro de susto, morro! Com esse cio
Podes morder qualquer homenzarrão,
Torcer e esfrangalhar num rodopio
A fama gloriosa dum machão!
Não te falta público desvairado
Aclamando teus feitos de guerreira
E desgraçado do homem que te afronte:
Ele será o último a ser amado,
Pode ser massacrado numa esteira
E nem há tomateira que se apronte!
22.04.2003
OH, QUE TOMATES!
Daniel Cristal
Mas não morri de susto, não, recorri
À minha condição de homem viril
E clamei nessa arena : estou aqui
Pronto ao desafio no redil...
Enchi-me desse leite que azeda,
Ensaiei de repente o golpe mortal;
Convenci-me que seria tiro e queda,
E quis vencer meio tonto o bacanal!
Ah, loba dum corisco, fui seu petisco!
Deve ter esfregado a coisa com o alho
Que me vi grego e mouro ou débil pisco
Lançado à porca fera d'um carvalho!
E entre beijos vorazes, uivos aflitos,
O bastão lhe meti nos sítios fitos!
22.O4.2002
ADORO ESTA
SONATA!
Daniel Cristal
A poesia é matezebra! É uma teoria
que equaciona o Universo numa alegoria
é uma equação onde entra a alma e a emoção
e acerta sempre quem usar o coração
É a incógnita do xis quando o ípsilon é Zê
demonstrando que a prosa é só um teorema
redobrado em problema do que se antevê
sem nunca acertar na teoria do sistema
Quanto amor há que não entra nesta estória
sendo o maior expoente uma síntese breve
como se o teorema fosse na memória
uma pródiga terra radical e leve
Ainda não ensaiei a poesia do depois
embora ame o saber duma musa que abusa!
Um mais um é igual a um... que sejam dois!
E o quadrado dos catetos não é hipotenusa.
27.03.2003

BEIJOS NO CORAÇÃO
Daniel Cristal
Regressa ao ninho a gaivota perdida,
Perdeu o seu rumo, perdeu-se no mar...
Definho de amor, a alma pungida,
E não há meio de a ver chegar.
Desejo que a lua ma traga de volta,
Tenho receio de não mais a ver...
Peço aos anjos pra fazerem escolta,
Receio a tragédia, se suceder...
Ela me tarda, esgotam-se as horas,
A lua é um pico na vertical,
Faço um túnel preso a escoras
Para que regresse num pedestal.
Estou louco de amor, o choro me afoga,
Estou exausto, não a sinto por perto,
Pego no terço, meu bico a Deus roga
Para que lhe mostre o caminho certo...
O ninho está frio, a alva acontece,
Estou morrendo nesta vil solidão...
Permite, meu Deus, que por mais esta prece
Lhe possa beijar o seu coração!

TODO NU!
Daniel Cristal
Vejo-o a olhar-me, como quem me despe!
Mas não me importa, sou como a lua
que para o Sol brilhante não se despe
e assim não me importo de ser sua
Os seus olhos são meigos tão bonitos
que no início até vôo pelo céu
e continuando assim seus olhos fitos
eu rebolo e maneio meu corpo ao léu
Mal ele sabe quanto eu gosto dele
Nem faz idéia quanto quer de mim
parecendo arredio à minha rede
Mas quando vier cheirar ao meu jardim
vai ter que se curvar e ajoelhar
e beijar toda a flor de que gostar!
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