EU
TE PERDÔO
Meu querido, hoje, após o nosso jantar de despedida, sim, porque esse é o nosso adeus para sempre, embora fique comigo a recordação deste grande amor. Quem sabe um dia nos encontraremos pelos caminhos da vida?
Eu desejo que tu partas tranqüilo a meu respeito, vá, segue teu caminho sem olhares para trás, sem preocupações, pois tu já as tens de sobra.
Eu aprendi, e nunca mais me esquecerei de que o perdão nos induz ao reconforto íntimo, afim de que possamos trabalhar e servir livremente, na construção da nossa própria felicidade.
Nós podemos, através dessa palavra, promover a extinção do mal, da ignorância; com a prática do perdão podemos impedir que ganhemos inimigos, que poderiam nos prejudicar e aborrecer.
Eu aprendi, meu amor, que o perdão nos liberta de quaisquer tormentos que poderiam restar no nosso coração, oriundos de mágoas e ressentimentos.
Por que sentirmos mágoas se fomos nós que os magoamos? Nós devemos, pelo menos, ser mais compreensivos. Eles não têm absolutamente culpa de nada. Nós somos os únicos responsáveis por nossos atos. Fomos nós, levados pela paixão, que não pensamos no sofrimento que poderíamos lhes causar.
Por isso, hoje, na nossa última noite juntos, te peço de coração que não guardes nenhum ressentimento por aqueles que nos separaram, tenta perdoar. Eu já os perdoei. O perdão nos imuniza o campo sentimental contra sensações e idéias negativas, palavras de revolta, vingança, ódio e, principalmente, nos imuniza das mágoas, que poderiam deixar-nos marcas profundas e cicatrizes eternas.
Não é necessário duas pessoas que, por alguma razão, se conheceram, se amaram verdadeiramente, viveram o amor em toda a sua essência, e foram forçados a se separarem, agora se culpem mutuamente e se melindrem, impondo-se sofrimento e dissabor.
Eu aprendi que o perdão é uma prova da nossa nobreza de caráter e da bondade que existe em nossos corações. Preferível sofrermos nós do que esfacelar duas famílias, pessoas inocentes que nos amam, que nos respeitam e acreditam em nós; em hipótese alguma, nós podemos feri-los, magoá-los...
Sei que na prática as coisas não funcionam dessa maneira. Sei que será muito difícil, mas essa situação que estamos vivenciando, é como uma luz que se acendeu em mim, e me esclareceu que o perdão, para nós mesmos, é comparado a uma lâmpada que o ofendido acende no caminho escuro daquele que o ofendeu.
E eu te perdôo! Sei que hoje tu sentes revolta, talvez até alimentes uma pequena parcela de ódio contra mim, ou penses que eu vejo e vivo a vida com frieza. Mas, tenho a certeza de que amanhã, quando entrares naquele avião sem olhares para trás, tu te sentirás mais leve, embora um tanto dolorido, alquebrado, o que é natural.
Nós ficamos feridos, no meio de uma estrada, esperando o socorro chegar, e quando ele chegar trará, aos poucos, o bálsamo que aliviará as dores de nossos corações, de nossas almas; aí, sim, começaremos a dormir mais serenos, conseguiremos encontrar paz, a alegria de recomeçar nova vida, divididos por dois oceanos, duas bandeiras, dois países, mas teremos a certeza de que fizemos a coisa certa na hora certa.
Por que negaria o meu perdão a ti, a quem eu tanto amo e sei que continuarei a amar? Porque não tiveste a coragem e o discernimento necessário para lidar com teus conflitos interiores, romper uma vida sem amor, mas que te deixava sereno? Com o passar do tempo, tu compreenderás que o amor que encontrarás sempre no sorriso de teus filhos, assim como eu encontrarei nos meus, nos dará a tranqüilidade para podermos enxergar que mesmo no momento da dor da separação, da saudade, ainda se pode caminhar na direção de um futuro feliz e sereno, desde que estejamos em paz com a nossa consciência.
Vá, amor, parta, não olhes para trás! Eu te perdôo, de coração, pelas palavras que me disseste, porque compreendo que não eram tuas palavras, mas, sim, as palavras de uma pessoa que vê o mundo desmoronar e está impossibilitada de fazer alguma coisa.
Vá tranqüilo, porque o nosso sofrimento de hoje será a alegria do amanhã.
Adeus amor!
ARNEYDE T. MARCHESCHI
VITORIA.E.E.SANTO
04.12.2002 - 16:40 hs.