SONHOS
Flori Jane
Creio que sou desde sempre uma sonhadora,
Que por muitos anos mutilou seus próprios sonhos.
E eles eram tantos...
Sonhados de dia e de noite.
Sonhos dourados, extraordinários e solitários.
(Nunca encontrei alguém com quem realmente
compartilhar sonhos)
Jamais gostei de vôos rasantes,
Prefiro-os majestosos.
Não gosto de sonhos sem graça...
Prefiro-os raros, de conquistas insuspeitáveis,
Coloridos e requintados.
Isso implica em altos riscos
E, possivelmente, a contraparte, que pede pela segurança,
Tenha sido responsável pela minha entrada
No mundo em preto e branco da realidade marcada pelo medo.
Medo de que os sonhos invadissem todos os espaços,
Medo de submergir no mundo fantástico dos meus desejos.
Tão frágil me sentia diante do fascínio dos meus devaneios,
Que me tornei escrava dos sonhos que sonhavam para mim.
Descobri, no meu próprio tempo,
Que era uma estrangeira no meu próprio mundo
E que viver ou morrer era uma questão de escolha.
Eu estava morrendo e escolhi viver.
Escrever meu próprio roteiro, ser protagonista do meu destino,
E jamais voltar a ser coadjuvante na história da minha vida.
Houve momentos em que senti
Que meus sonhos estavam me corroendo lentamente.
Que estava perdendo tudo por eles e, mesmo assim,
Amei cada segundo do sonho que o meu coração sonhou.
( Do que é capaz uma alma apaixonada!)
Olhei para meus sonhos insustentáveis e pensei:
"Sou uma tola sonhadora que acredita nos próprios sonhos".
E um dia disse à mulher-criança-injuriada-com-seus-descaminhos:
"Os sonhos são importantes desde que não tomem o lugar da própria vida"
Aprendi que posso sonhar
E não deixar a vida escapar por entre os dedos.
Que o "impossível" dura o tempo
De tornarmos o sonho "realidade".
Penso que quando um sonho morre,
O sonhador morre um pouquinho.
Mas prefiro recolher os restos de um sonho destruído
Do que jamais ter sonhado.
(Ainda não perdi a esperança de encontrar alguém com quem compartilhar sonhos).
A VOCÊ, AMOR QUE NÃO CONHEÇO
Flori Jane
A você, meu amor,
que não existe para além do meu desejo
A você, que não tem nome,
não tem rosto...
e que eu não vejo
A você, que mesmo assim
domina os excessos dos meus sonhos
Controlando a alegria,
a tristeza...
e o prazer de cada dia
A você, fugidia imagem,
que se embaraça
Na louca trama
da teia que eu teço em agonia
A noite toda,
afogada em vãos desejos
Somente a ti
eu me entrego totalmente
Somente em ti
eu me recosto sem segredos
Com você eu me permito
e me concedo
Na sua hora
eu me eternizo e me transcendo
A você, meu doce amor,
dou a minha alma
Tivera um rosto e,
certamente,
eu não daria.
10/07/2001
IMPRESCRITÍVEL CORAÇÃO
Flori Jane
Amar é...
Entregar-se de corpo e alma, mergulhar de cabeça, e esperar que o seu amor faça surgir o amor na pessoa amada;
Esperar até o último minuto, que o homem amado venha torná-la a eleita de um amor sem limites, e a deleite com mil e uma carícias em mil e uma noites de puro amor;
Alegrar-se, a cada amanhecer, por acordar nos braços do amado e, à noite, abrir a guarda, aquietar-se e adormecer no silêncio do abraço gentil e apaixonado, que só ele tem para te oferecer;
Entender os momentos de solidão que ele precisa (e você também) para sustentar a vida e o amor que têm um pelo outro, pois ser feliz e viver um amor é difícil e trabalhoso, exigindo desprendimento e dedicação. Há que se "recarregar" para fazer o amor sobreviver;
Compreender que, vez por outra, ele queira se ver livre de você e prefira estar com os amigos, ou ainda sair para uma bela pescaria, pois você não é tudo para ele o tempo todo - é "apenas" o seu grande amor e a razão de seu existir. Para ser assim, tem que haver um espaço entre vocês, pois desse modo, a saudade e o amor têm como acontecer;
Perceber quando ele precisa de um colo, um carinho, um trejeito, um afago, um cheirinho e mais nada, a não ser percorrer milhas para, simplesmente, dormir em seus braços de mulher/menina/mãe/companheira e se entregar ao mais pleno êxtase de ser aceito, nesse momento, como um menino "querente" de um "você muito especial";
E por que não dizer, rir quando se tem vontade de chorar, chorar quando se pretendia sorrir e ter pesadelos em vez de sonhar. Soluçar baixinho para não demonstrar a decepção, a mágoa e o medo. Angustiar-se, implorar, fazer de conta, brigar, maldizer, praguejar, sofrer, colocar um fim em tudo e depois... voltar;
Mas é também rir de puro prazer, preparar agrados e surpresas, encontrar motivos para sentir-se feliz em papeizinhos de bala amassados, flores secas guardadas, lembranças de olhares, sorrisos, suspiros entrecortados, toques escondidos, e tantas "baboseirinhas" mais;
É sentir frio na barriga, calor na boca do estômago, gelo na espinha e ruborizar-se na hora do amor, mas de mal simulado decoro, porque nessa hora é a hora em que o corpo se transforma em harpa, para o toque do artista, para a arte que se revela em sons, que transportam para regiões inusitadas e doces, e selvagens, e cálidas, sem fronteiras, sem entraves, sem pudor;
Amar é um pouco disso tudo e muito mais. É subir aos céus e descer aos mais profundos recessos do mais terrível desespero. É conviver com os anjos e contracenar com demônios. É iluminar-se, obscurecer-se, não porque o amor seja pouco, mas porque é demais, e nós não sabemos lidar com os excessos. Não sabemos como amar de menos, porque isso não há, e não sabemos dosar o amor, porque isso também não há.
E quando o amor acaba...
Aí sim é que alma se consome no padecimento do desamor, num gerir de dores sem fim.
Mas desse tempo de não existir emerge o amor dos começos, pois quando um ciclo de amor se encerra, outro se abre, na ânsia de engatinhar rapidinho e crescer em grande esplendor, já que nosso imprescritível coração não consegue ficar excluso e sem amor.
21/08/2000