PALAVRAS QUE O MEU CORAÇÃO DITOU


Quando a mão delicada acaricia meu rosto, eu me lembro de você, de quando eu era pequena e das vezes que você me colocava nos joelhos e, delicadamente, me dizia: "Filha, você é linda!"

Ah! papai querido! Onde andará você neste exato momento? Nesta hora em que estou com meu coração e minha alma aos prantos, precisando de seus joelhos, do seu colo, da sua mão amiga e generosa a abraçar-me, dos seus lábios para me aconselhar, dos seus braços para me acariciar...

Estou só... Todos vocês me deixaram... Partiram, um atrás do outro sem ao menos um beijo de despedida, dizer o quanto eu amava e precisava ainda de vocês..

Por que papai? Por que sendo o mais velho, o mais atencioso a tudo e a todos, você foi o primeiro a me deixar, sabendo que eu não teria condições de prosseguir sem você, sem seus sábios conselhos? Por quê? Eu lembro da última noite em que passei à sua cabeceira, você rezava baixinho conosco, mas sua voz se erguia quando dizíamos: "Na hora da nossa morte, Amém"

De repente, você silenciou os lábios, seus olhos viravam de um lado para o outro, parecia que queria nos ver um a um; cada olhar seu era mais doce, principalmente quando recaiu sobre seus netos Giovanna e Rodrigo... Ah, Papai! Quanto eles sofreram e ainda sofrem sem você! 

O que muito me angustia é você não ter visto o que mais desejava: meus filhos formados e na Igreja se casarem.. Como você se sentiria orgulhoso da beleza dos seus netos nesses dias! 

Depois, quando vieram ao mundo Lucca e Enzo, meus dois netinhos, filhos do Rodrigo, você não estava para me abraçar e chorarmos e rirmos de alegria pelo magnífico tesouro que ganhamos dos céus; e eu estava sozinha, porque o meu marido também partiu sem nada ver, sem poder gozar desses momentos únicos de felicidade.

Logo em seguida, meu único irmão parece que atendeu seu chamado papai. Então me sentia cada vez mais desesperada e só. Você me perguntaria: E sua mãe, não ficou com você para lhe dar forças, lhe ajudar? Eu lhe responderia: Não, meu papai querido, meu amor, minha vida, a mamãe não estava conosco; o que havia dela era uma figura apática, sem brilho no olhar, sem um sorriso nos lábios, sem nenhum amor para poder nos dar, porque a mamãe morreu no dia em que você foi embora, sem se despedir e deixando-me sozinha também. Nós éramos meros coadjuvantes na sua dor... De nada adiantávamos para ela, pois seu coração, sua alma já havia partido com você, papai, que sempre foi o seu único amor... E você sabe o que digo, "AMOR" igual ao de vocês acho que jamais existirá.

Papai e Mamãe, onde quer que estejam neste momento, lhes afirmo o meu imenso amor, a minha imensa dor, o arrependimento das tantas vezes que eu poderia ter-lhes dito que os amava e não disse; das muitas vezes que lhes poderia ter pedido perdão e me calei.

Hoje, que o desespero habita o meu coração, o vazio mora em minha alma e no meu corpo, eu olho para trás e os vejo sorridentes, cheios de amor e felicidade ao me contemplar no dia do meu nascimento. E como vocês foram felizes....

O que eu queria agora, papai e mamãe, era poder dar-lhes um abraço bem forte e dizer-lhes baixinho, apertando-os de encontro ao meu peito, hoje já fraco, envelhecido, esmorecido pela pouca vontade de continuar vivendo e pela muita vontade de juntar-me a vocês, eu só queria ter tido tempo, para dizer-lhes: "Obrigada, pelos pais que vocês foram para mim! Obrigada, por todo amor,carinho, dedicação, paciência, tolerância, e por terem me dado o perdão que nunca tive coragem de pedir!

Até qualquer dia, meus amados e querido pais, e se virem meu irmão e meu saudoso marido, diga-lhes que estou cheia de saudades e que, ao meu modo, eu também os amei muito.

Adeus! A filha que os adora!




ARNEYDE T. MARCHESCHI
VITORIA.E.E.SANTO
20.10.2002 - 23:00 hs