SÃO DEZOITO HORAS

 



São dezoito horas. Estou na minha varanda molhando as plantas e contemplo o
belo pôr-do-sol. Esta é a hora do dia de que mais gosto, apesar das muitas
recordações e da melancolia.
De um apartamento vizinho, ouço a doce e suave música da Ave-Maria. Ergo os
meus olhos para o céu e agradeço ao Criador pela vida, pela bela imagem que
se descortina aos meus olhos; o sol se pondo atrás dos montes, brincando com
sua sombra no mar, nos oferecendo esse espetáculo maravilhoso,  a emoção do
espetáculo da vida, numa sincronia de cores indescritíveis...
Sinto o meu coração pulsar acelerado pelas recordações e saudades que nos
trazem o passado de volta. Sinto aquela gostosa saudade das pessoas queridas
que sozinha me deixaram. Não... seria egoísmo pensar assim, porque tenho
meus filhos, nora, genro e dois netinhos maravilhosos, que são a minha única
razão de viver.
Neste momento, como eu gostaria de estar junto aos meus queridos pais, meu
irmão e o homem extraordinário e especial que foi o meu marido!
 Ah! Mamãe, também com intensa saudade dos outros que já partiram,  como eu
gostaria que você estivesse comigo aqui e agora, para juntas  conversarmos,
olho no olho, neste momento mágico! Conversar coisas que deixamos de falar
por muitos e muitos anos, e  você se foi sem ter tido tempo de me dizer ou
de me ouvir! Coisas que estão se passando no meu coração, neste capítulo da
minha vida, que só a você eu gostaria de dizer! Como eu gostaria  de
compartilhar os meus sonhos e amores, que estão dentro do meu coração,
vivendo uma nova etapa na minha existência!
        Gostaria de poder descobrir com você coisas que não tivemos tempo de
juntas conhecer, de vivenciar, de saber se era certo ou errado! Justo quando
estávamos nos reencontrando numa intimidade de mãe  e filha  amigas, a vida
nos separou, sem nos dar nem  tempo para uma despedida, para um até logo,
nada... Você partiu silenciosamente, como sempre viveu nesses 81 anos no
lado de cá.
        Mãe, eu espero que onde você esteja fale um pouquinho mais.  Mesmo
sabendo que a sua presença física não está mais comigo, sinto-a ao meu lado
pronta para ouvir o que eu quero lhe contar, embora você, desta vez, tenha
sido a primeira a perceber os movimentos do meu coração, o novo brilho dos
meus olhos, o meu sorriso mais franco, sem tristezas, somente saudades...
Sabe mãe, eu queria que você estivesse comigo, para ver como sua filha está
feliz e inebriada, acreditando num novo e florido caminho.
Sabe mãe, olhando para o céu, parece-me vê-la, poucas semanas atrás, quando
você me disse uma coisa que eu esperei ouvir de você durante  meus  52 anos
de vida, quando, naquele sábado,  eu estava me esmerando na maquiagem porque
iria sair para jantar e  dançar com P.... e você entrou no meu quarto, me
abraçou e  disse: Filha, como você está linda! Como seus olhos brilham! E
você começou a cantarolar: "É o amor... é o amor!"
Sabe mãe, meus olhos se  encheram de lágrimas pela emoção de vê-la cantar
para mim, por mim, pelo fato de dizer que eu estava bonita e pelo simples
fato de que você, espontaneamente, nunca havia me abraçado assim antes...
São momentos como esse, mãe, que eu gostaria de poder dividir com você e
nunca pude, porque estávamos muito longe uma da outra. Embora morássemos na
mesma casa, algo nos separava...e somente agora que a perdi eu entendo o
quanto eu a amo mamãe, e do quanto eu ainda precisava do seu colo, do seu
carinho, dos seus conselhos.
Mas, sinto-a sempre ao meu lado e nosso amor se fortificará cada vez mais;
sei que nos momentos difíceis, que terei  de enfrentar sozinha, não estarei
só, porque você estará aqui comigo, segurando a minha mão, sorrindo para mim
e me dando todas as forças de que preciso para enfrentar este momento de
transição e de mudanças na busca do aprendizado  de mim mesma.
Obrigada, mãe, pelo seu amor, que me foi dedicado em todos esses anos em que
talvez eu não lhe tenha dito suficientemente forte para que você ouvisse :
MÃE, COMO EU A AMO!  OBRIGADA POR TER ME ESCOLHIDO E ME ACEITADO COMO SUA
FILHA.





ARNEYDE T. MARCHESCHI

VITORIA E.SANTO
22.08.2002 - 17:55hs